Observatório da Gestão Esportiva

O impacto do Coronavírus sobre os Clubes Brasileiros

Haverá perdas para todos, ninguém está imune. O tamanho dela, porém, dependerá da duração da paralisação dos campeonatos, mas há vetores de baixa por todos os lados.

Se só os estaduais forem afetados, o prejuízo será menor, considerando aqui os efeitos sobre os clubes de séries A e B. Já o cenário de stress é aquele em que os campeonatos nacionais e continentais (liberta, sula) sejam afetados, pois se houver redução do número de jogos e da duração da competição, inevitavelmente haverá renegociação dos contratos de Transmissão e de patrocínios, que representam metade das receitas dos clubes. Não podemos esquecer que as empresas já sofrerão uma pressão adicional nos seus mercados por cortes de custos, o que tornará o mercado de patrocínios ainda mais complicado.

Outra fonte relevante de receitas dos clubes (cerca de 25%) vem das vendas de jogadores, que será impactada pela redução de receitas também nos mercados compradores (Europa, Ásia, etc), havendo aqui o atenuante da desvalorização do real, que barateia o valor dos nossos jogadores.

A Bilheteria representa cerca de 10% das receitas e é outra conta cuja redução depende do tamanho da parada. Neste momento o impacto não é tão grande porque os estaduais são pouco atrativos e normalmente não geram grandes receitas, salvo um ou outro jogo de final. A partir de maio, porém, o impacto aumenta.

O Sócio torcedor é uma receita um pouco mais perene, mas deverá enfrentar duas pressões de redução: 1) a redução de jogos, que pode levar torcedores a cancelarem os planos e ; 2) haverá aumento do desemprego e da incerteza com o futuro, o que fará com que os torcedores também cortem suas despesas.

Mas se a situação é ruim para os clubes maiores, de serie A e alguns de B, ela será dramaticamente pior para os menores. Há no Brasil 646 clubes disputando competições, sendo 123 clubes com calendário anual (brasileiro A/B/C/D), e outros 523 disputando apenas competições estaduais por 3 ou 4 meses por ano, ocupando cerca de 25 mil profissionais. Boa parte deles estaria jogando justamente agora, o que faz do cancelamento dos estaduais uma condição de risco de continuidade para eles. Traduzindo: o vírus machuca um clube maior, mas para os menores ele pode ser mortal.

Mas como crise também pode ser oportunidade, poderíamos tentar fazer deste limão uma limonada, utilizando o momento atual para finalmente discutirmos a mudança do calendário, atacando o problema central: o excesso de jogos dos clubes grandes, e a falta de calendário dos pequenos. Isto seria o ideal, mas sinceramente, não creio que acontecerá, considerando os líderes que temos em nosso futebol.

Voltando ao cenário geral, uma simulação otimista seria aquela em que os estaduais são apenas reduzidos, com retorno das competições em abril. Neste caso, os clubes de série A tendem a ter perdas médias de 11% das receitas, com impacto assimétrico no fluxo de caixa: alguns clubes estarão em sérios apuros, enquanto outros farão a transição de forma menos traumática.

Por outro lado, em um cenário de stress, com redução do campeonato brasileiro pela metade e com os campeonatos no hemisfério norte voltando apenas em setembro, a perda de receitas poderia superar 40%, um impacto impossível de ser contornado sem um brutal corte de despesas. Nesse sentido, um dos alvos seria uma quarentena (ou carência) para o Profut, o que até pode ser um alívio importante para alguns clubes, mas nada que resolva a situação, pois a principal conta a ser atacada é o custo dos elencos. Cerca de 40% da despesa total de um clube é com o profissional e sua comissão técnica, o que torna inevitável a pergunta: Estarão jogadores e técnicos dispostos a participar do ajuste, e cortar parte de seus salários? Precisamos falar sobre isso!

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